Ancora de TV deixa furo no ar, no último dia do ano

Minutos antes de começar um jornal de abrangência nacional, um ancora de meia idade, parece estar ansioso. Seus olhos estão inquietos e se movem de um lado a outro na ante-sala do estúdio, como se procurasse algo em seus pensamentos, seus lábios se movem em silêncio. Talvez estivesse tão somente rememorando a seqüência pré-estabelecida de noticias, e contextualizando onde seus comentários peculiares deveriam incidir de forma dura e esclarecedora. Sim, porque jornalista que se preza não pode ser apenas um locutor de noticias, ele precisa mostrar a verdade à população. Ele se via como um dos grandes e seu atual posto era a prova disso. Jornalista tem que ter personalidade, falar o que pensa sobre este ou aquele assunto, emitir opiniões, deixar de forma clara sua posição. Ficar em cima do muro, nunca - pensava.
microfone, jornalista, opinião
O noticiário começa e seus olhos faíscam. Sentado em sua poltrona de R$ 10.000,00 ele lê uma noticia sobre um seqüestro de uma adolescente, filha de empresário. A noticia seguinte trata de um assalto a banco, onde pessoas foram feitas reféns. A terceira noticia fala de uma fazenda invadida pelo MST, no Acre. Ele já não se agüenta mais e emite seu primeiro comentário:

Isso é uma vergonha! Seqüestro, assalto e invasão... essa gente ia mofar na cadeia, num país sério.

Em seguida, a moça do tempo inicia a previsão. Enquanto isso, ele pede um copo de água. Ele continua nervoso, talvez esteja preocupado com a festa de reveillon de mais tarde, afinal hoje é o último dia do ano. Ele chama alguém para ajeitar seu cabelo. Seus dedos batem na mesa em seqüência nervosa, do mindinho ao indicador, várias vezes. Ele olha para o monitor e vê que sua vez já está chegando novamente. Ele fixa os olhos no teleprompter e diz com aquele sorriso sorridente:

Fim de ano, época de comemorações e desejos de que o ano que se inicia seja muito melhor do que o que se finda. Esse é certamente o desejo de milhões de pessoas que, nesse momento, se reúnem para confraternizar, em casa, com os amigos – vejamos a reportagem.

A reportagem é mostrada com imagens de celebrações em várias partes do país e ao final, termina numa mansão, com dois mega-empresários do setor especulativo, brindando com champanhe, desejando felicidade a todos, numa festa regada à mulheres de biquini. O jornal termina e ele deseja:

Boa noite!

Alguém esquece de desligar o som quando se houve....

Hu la la que festa... onde é isso?
Compartilhe
Inscreva-se

0 comentários:

Postar um comentário